O tal do Parto Humanizado

Há pouco mais de 4 meses recebi o melhor presente do mundo: depois de 40 semanas e 4 dias de gestação, minha filha nasceu!

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Quem me conhece e falou comigo a respeito sabe que desde que descobri minha gravidez decidi que faria de tudo para que ela viesse ao mundo naturalmente, sem intervenção cirúrgica (cesárea) ou drogas, da forma como eu quisesse, ou seja, como eu me sentisse mais confortável. Em outras palavras, passei a sonhar e a idealizar o dia em que faria o parto humanizado da minha filha.

Tentaram me fazer mudar de ideia, fui chamada de louca, sei que algumas pessoas me julgaram irresponsável, mas depois de ler e pesquisar muito a respeito,  nada foi capaz de me dissuadir dessa decisão. Também fiquei de saco cheio de responder que não tinha marcado uma data ainda, pois esperaria ela decidir nascer. Quero deixar bem claro que somente duas coisas me fariam mudar minha escolha: a segurança e saúde da minha filha. Mesmo decidida, não escolheria esse tipo de parto se não fosse viável. Também não quis que ele acontecesse em casa, pois me sentia mais tranquila sabendo que teria à minha disposição uma equipe médica e todo o aparato necessário no caso de uma emergência.

Depois que tudo passou, muita gente me perguntou como foi. Esse foi um dos motivos pelo qual decidi fazer esse post. O outro? Mostrar que o parto normal, como o nome já diz, não é coisa de outro mundo. Não estou aqui para julgar ninguém e acho que a decisão do que fazer com o seu corpo vai de cada mulher, mas passar por uma cirurgia de grande porte quando não há indicação médica, é um grande risco a ser levado em consideração e que deveria ser evitado. No parto normal são algumas horas de sofrimento, mas a recuperação é muito mais rápida e tranquila que em uma cesárea. E, apesar do que muitos pensam, os riscos tanto para a mãe quanto para o bebê são bem menores.

Mas agora vamos ao que interessa, o meu trabalho de parto:

Tudo começou no dia 5 de junho, com 40 semanas e 2 dias de gestação, quando perdi meu tampão mucoso. Liguei para meu médico e a enfermeira obstetra que contratei para me acompanhar no dia e ambos me disseram para me preparar que isso era um sinal de que o trabalho de parto já estava próximo (meu médico disse que em geral são 2 dias, mas para algumas mulheres esse período entre perda do tampão e trabalho de parto pode chegar até 15 dias). No dia seguinte, próximo ao horário do almoço, comecei a sentir algumas contrações* diferentes daquelas “de treinamento”, as Braxton-Hicks, às quais já estava acostumada, e elas vinham em intervalos longos, em torno de 1 ou até 2 horas cada, sendo elas de curta duração e bem baixa intensidade. Por volta das 7 horas da noite, o espaço entre elas começou a diminuir e elas já vinham a cada 30 minutos, mas em intensidade muito baixa e com pouquíssima dor. Foi somente às 11 da noite que elas começaram a ficar mais doloridas, com duração entre 1 e 1,5 minuto cada, e menos espaçadas, ocorrendo entre 2 ou 3 vezes em um intervalo de 10 minutos.

Chegando no hospital, à 1 da manhã, logo fui para a emergência para que fosse feita a cardiotocografia (exame que avalia o bem estar fetal e a evolução do parto, através da medição dos batimentos cardíacos do bebê e da intensidade das contrações) e fui encaminhada ao meu quarto, onde passaria a maior parte do trabalho de parto. Durante todo esse tempo, meu obstetra passava no meu quarto de 2 em 2 horas para fazer o exame de toque (para verificar a dilatação) e o resultado das cardiotocografias, que eram realizadas mais ou menos a cada 1,5 hora (isso que eu me lembro). A enfermeira obstetra, que fez também o papel de doula, ficou comigo o tempo todo, e foi quem me ajudou a superar os piores momentos  do trabalho de parto e me encorajar a seguir em frente.

Depois de umas 5 horas em trabalho de parto, quando andar, massagear minhas costas e colocar bolsa de água quente já não bastavam para aliviar minha dor, fiquei pela primeira vez, por uma hora, embaixo do chuveiro quente** e em cima da bola de pilates (essa foi a opção sugerida por meu médico e pela enfermeira, pois o hospital não tinha uma banheira nem uma sala própria para o parto humanizado). Esses momentos embaixo d’água e em cima da bola, além de aliviar a minha dor e torná-la suportável por um tempo, para que eu pudesse recuperar minhas forças, também ajudaram com a dilatação. Se bem me lembro, eu fiz isso 3 vezes.

Às 9 horas da manhã eu já estava tão cansada que só pensava em ficar deitada e chegava até a dormir entre as contrações. Essa é a parte do parto da qual menos me lembro; a dor e o cansaço eram tão grandes que eu acordava para a contrações e logo depois dormia. O único alívio era uma bolsa de água quente que eu colocava em minha lombar, mas eu nem pensava mais em andar para estimular a dilatação e mal conseguia ficar em pé.

Às 11 da manhã eu havia dilatado 8 cm e por sugestão do médico e da enfermeira, tive minha bolsa estourada. Além de acelerar o trabalho de parto, que havia começado a ficar mais lento, poderia ser verificada a presença de mecônio no líquido amniótico. Quando a bolsa foi estourada, foi constatado que havia mecônio, mas em pouca quantidade, em meio ao líquido. Por sugestão do médico, fui encaminhada a um centro cirúrgico, pois assim evitaríamos qualquer prejuízo à saúde da minha bebê. A minha ideia era ter minha filha no quarto, mas acabei concordando por meu médico ter me dado total liberdade para ficar me movimentando e nas posições que eu desejasse no centro cirúrgico.

Ao meio dia, já no centro cirúrgico, a dilatação continuou a em um tempo razoável e a dor ficava cada vez pior. Foi um pouco mais de 1 hora até que eu entrasse no período expulsivo e pela primeira vez durante toda a minha gestação senti medo. Como seria quando minha filha nascesse? Será que a dor seria pior do que eu vinha aguentando até aquela hora?! Meu medo foi tanto que pedi pela anestesia, mas o médico, a minha enfermeira obstetra e as enfermeiras presentes na sala me disseram que não fazia mais sentido, pois essa fase, apesar de dolorida, era rápida. Mas enfim chegou o período expulsivo e com relação à dor, não foi a pior parte para mim. Nesse momento, a única coisa que passava na minha cabeça era fazer força, mas eu já estava muito cansada e por mais uma vez pensei que não fosse conseguir. Já deitada na maca, precisei fazer essa força (não sei que palavra usar aqui) por umas 3 vezes e fiquei muito cansada, já estava completamente sem energia. Quando disse que não aguentava mais, ouvi do meu médico e da enfermeira que seria a última vez, e foi só eu fazer essa força mais uma vez, que a cabeça da minha filha saiu. Foi meu médico cortar o cordão umbilical ao redor do pescocinho da minha filha, que o corpinho dela escorregou. Na hora que vi a cabeça dela, fiquei desesperada, pois ela estava roxa e com duas circulares de cordão. Já sabia que circular de cordão era comum e não indicativo de necessidade de cesárea, mas ao ver minha filha roxa, fiquei apavorada. Mas logo depois ela começou a chorar e sua nota Apgar foi excelente, então me tranquilizei e senti orgulho de mim mesma, por ter conseguido algo que vinha planejando há vários meses.

Depois dela nascer, todas aquelas dores passaram e quando me perguntaram se foi muito ruim, sabe a minha primeira resposta? “Não foi fácil, mas não me lembro das piores partes”. E é verdade! Daquelas 15 horas em trabalho de parto, me lembro vagamente de algumas. Sofri muito e pensei em desistir algumas vezes, mas faria tudo de novo, pois sei que a minha escolha foi o mais saudável para mim e minha filha: ela nasceu de forma natural, sem drogas e sem intervenções desnecessárias. Quanto a mim, poucas horas depois já estava andando normalmente, sem dor e pronta para mais uma maratona e o maior desafio da minha vida: cuidar de uma bebezinha!

Para as futuras mamães que pensam em também fazer o parto humanizado, posso dizer que vale sim a pena! Dois profissionais são extremamente importantes para que tudo dê certo: um médico em quem você confie (e que queira realizar o seu parto de forma natural tanto quanto você), e uma doula (no meu caso, foi uma enfermeira obstetra) que te dê todo o suporte emocional na gestação e por todo o trabalho de parto (quem for da região de Catanduva-SP e quiser indicação desses dois profissionais, é só me pedir). Também indico a leitura do livro “Parto Ativo – Um guia prático para o parto natural”, da Janet Balaskas, que é um guia completo sobre o parto humanizado e me ajudou a esclarecer várias dúvidas.

Mais uma vez quero deixar claro que não julgo a escolha de ninguém, pois cada mulher sabe o que é melhor para si. Mas gostaria muito que as futuras mamães parassem para ler um pouquinho a respeito do parto normal (humanizado ou não) e percam esse medo e preconceito que é passado a nós desde que somos pequenas.

Espero que tenham gostado! E às futuras mamães, que tenham uma boa hora!

*Para quem não sabe, e estou aqui dizendo isso por eu também não saber 100% como eram até acontecer comigo, as contrações começam nas costas e depois seguem para a barriga. Cada mulher é diferente e para mim a pior parte foi a dor nas costas, sendo que muitas vezes minha barriga nem doía direito. A sensação era de que minhas costas iam quebrar no meio, tamanha a dor na minha lombar. Era uma dor que durava aproximadamente 1,5minuto (que mais pareciam 10), que de tão forte chegava a dar ânsia de vômito e me deixavam sem fôlego.

**Não pensem que aguentei a dor tranquilamente. Pensei em desistir diversas vezes e nos piores momentos cheguei a pedir uma injeção para tirar a dor, mas após cada contração eu mudava de ideia, pois sabia que por mais doloridas que elas fossem, eu conseguiria aguentá-las por mais algumas horas. A meu ver, foi essencial ter alguém com experiência para conversar, pois acho que se eu estivesse sozinha eu não teria chegado até o final. 

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